Gazolla promove debate sobre interseccionalidade na saúde pública

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Publicado em 03/07/2026 - 10:06  |  Atualizado em 10/07/2026 - 16:07
Foto: Cícero Sydrônio/RioSaúde

O auditório do Hospital Municipal Ronaldo Gazolla foi palco, na última quarta-feira (1/7), do evento “Interseccionalidade na Saúde Pública”, uma iniciativa voltada à reflexão sobre a importância dos indicadores de raça/cor, identidade de gênero e deficiência na produção do cuidado em saúde.

A atividade, que integrou o projeto “Diálogos com o SUS”, foi idealizada pelas discentes Ana Teodoro, Luany Araujo e Maria Heloiza Neves, da Escola de Serviço Social da UFRJ. O encontro buscou aprofundar a compreensão sobre como diferentes marcadores sociais influenciam o atendimento e a equidade no sistema de saúde.

“Desenvolvemos este projeto de intervenção do zero a partir das trocas com os profissionais da área e com os nossos supervisores, pensando a importância de abordar esses indicadores sociais na saúde e como ele vem sendo tratado no cuidado aqui no hospital. Trazer esses indicadores pra gente debater pensando em como que a gente vem se posicionando, todas as categorias profissionais, né, porque eu falo aqui do lado do serviço social, mas a gente entende que a profissão ela não se constrói sozinha, ela se constrói junto com os enfermeiros, com os médicos, em todas as outras categorias profissionais que ocupam o espaço hospitalar. Então pra gente pensar juntos como que todas essas categorias estão construindo esse cuidado com todas as pessoas que passam aqui pelo Gazolla, no processo de internação”, explica Maria Heloiza.

 

 

O relato destaca o papel fundamental da integração entre teoria acadêmica e prática profissional, defendendo que o estagiário deve atuar como um agente mobilizador, capaz de levar inquietações e novas perspectivas para as equipes de saúde. Essa interlocução é vista como uma estratégia essencial para superar desafios na educação permanente e oxigenar a prática cotidiana.

“Essa discussão, embora histórica para o movimento negro, ainda é recente na universidade, que tradicionalmente tangencia esses temas ao privilegiar perspectivas eurocentradas. É um desafio nomear o racismo institucional e estrutural, mas a saúde é, justamente, o campo onde tudo isso aparece. O que parece ser um atendimento básico, muitas vezes, revela barreiras de acesso e uma dívida social histórica encoberta pelo mito da democracia racial. Por isso, valorizo o legado de intelectuais e ativistas que desde a redemocratização lutaram para incluir o debate racial nas políticas públicas. Hoje falamos melhor sobre isso, mas não podemos esquecer que, na linha de frente do cuidado e na articulação política, sempre estiveram as mulheres, que foram as grandes responsáveis por ampliar nossa compreensão de saúde para além do biológico, integrando as perspectivas de raça e gênero que hoje sustentam nossa atuação”, explica Thamires Costa, que atua como professora na Escola de Serviço Social (UFRJ) e pesquisadora nos eixos da saúde, relações étnicos-raciais, interseccionalidade e saúde da população negra.

Além de Thamires, também participaram do bate-papo a Etiani Sales, médica e coordenadora da Clínica Médica do Gazolla; Niara Felipe, assistente social, trabalhadora do SUS e pesquisadora das áreas de epistemologia e educação travesti; e Dejane Nascimento, assistente social com atuação consolidada em saúde mental, diversidade e inclusão.

A discussão sobre o cuidado toca na necessidade urgente de humanizar o atendimento, respeitando a identidade de cada usuário. “Muitas vezes, existe resistência em reconhecer que pequenas falhas, como o uso incorreto de pronomes ou a negligência com o nome social, configuram violências graves que afastam as pessoas do SUS. Como usuária e profissional, vivencio a dor de ter o ‘nome morto’ chamado e sei que, se eu sofro isso, imagine quem tem menos acesso. Precisamos de um SUS que acolha a todos. Se a identidade não é respeitada, a pessoa não volta; o acolhimento começa no básico: na escuta atenta e no compromisso de não reproduzir violências”, enfatiza Niara.

Para Etiani, é fundamental enxergar quem é a pessoa por trás da patologia, sem restringir o olhar apenas à enfermidade. “Precisamos considerar todas as dimensões que compõem o indivíduo e o seu sofrimento. Muitos podem argumentar que buscar essas informações traz complexidade, mas acredito que estamos apenas devolvendo ao ser humano a complexidade que ele naturalmente possui e que deixamos de notar. Fomos treinados a focar na doença em vez da pessoa e, ao fazer isso, perdemos a nossa essência, o ato de cuidar”, conclui.

O evento contou ainda com a participação de Lyz Parayzo, artista e pesquisadora com formação internacional, que agregou perspectivas valiosas ao debate sobre arte, tecnologia e pesquisa-criação.

Jornalista: Marcelle Corrêa
Fotos: Cícero Sydrônio

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